É isso aí. A vida é feita de realidade. A gente gosta de se acostumar no nosso mundinho, criado com perfeicão dentro de uma redoma de vidro. Família estável, infância saudável, seguranca econômica, boa educacão, etc., etc. Como uma versão imaginária do pânico dos condomínios fechados. Um muro ideológico que me protege das misérias do mundo e me deixa andar tranqüilo durante o dia, protegido da minha consciência. Notícia ruim, só no jornal, pra eu poder me informar sobre um mundo que me alcanca diluído pela TV, indistingüível de uma obra de ficcão, e poder reafirmar pra mim mesmo quão melhor eu sou por não fazer parte daquilo.
Mas às vezes a realidade vem e chuta a nossa porta. Quebra a redoma. Olha nos olhos, questiona, encara, cobra.
Cobra de quem virou as costas, de quem fingiu que não viu, de quem achou que não era com ele, que "não acontece comigo".
Às vezes é preciso morrer alguém próximo de forma violenta e sem explicacão pras pessoas pararem pra pensar. Às vezes descobrir que seus filhos usam drogas.
No meu caso, não precisou de tanto. Mas talvez com o que aconteceu eu não tenha pensado o suficiente. Talvez eu só fique chocado agora, ou durante algumas horas mais, quem sabe uns dias, e depois esqueca, volte para detrás do muro.
Estava chegando em casa hoje, vindo pela Av. Santa Isabel, quando ouvi alguns gritos, vi um homem passar correndo. Depois uma mulher. Em seguida, uma crianca, mais duas mulheres. Quando a crianca passou por mim, ainda indecisa se corria atrás do resto ou não, eu vi sua cara de desespero, aquela cara de quando você se sente completamente perdido e sozinho no mundo.
Eu estava indo no sentido contrário que essas pessoas, e fiquei me perguntando o que será que estava acontecendo, e fiz uma breve oracão para que não fosse nada grave.
Depois que cheguei em casa, as mesmas pessoas voltaram, e comecou uma gritaria na rua bem em frente ao meu portão. Foi quando eu vi que era a D. Edna, a faxineira aqui de casa, alcoólatra, cheia de problemas na vida, mãe de três filhos, irmão assassinado há 15 dias. Tinha pego o marido traindo-a na sua própria casa, com os filhos todos vendo - até o mais novo, 7 anos, confirmava quando a mãe perguntava: "é, ele tava chupando a buceta dela" -, e estava aos tapas com ele na rua, de faca na mão e trocando ameacas de morte.
E nós da casa (moro numa república com mais 5 pessoas), por sermos clientes dela, acabamos virando parte da bagunca. Ela chegou aqui gritando, chorando, as criancas já foram entrando, pediram pra ligar pra polícia, e o homem ficou lá do lado de fora, perguntando se tinha algum homem ali dentro pra brigar com ele, etc. Fiquei sabendo também que ele agrediu o filho mais novo, a filha mais velha, falou que não gostava do filho do meio e o jurou de morte um pouco mais tarde, junto com a mulher e os outros filhos. Estes fugiram à pé, e neste momento estão a caminho da casa de algum conhecido para quem a D. Edna ligou, pedindo que a deixasse ir pra lá e que chamasse "uns caras barra-pesada, com arma e tudo", para o caso do marido aparecer.
A minha primeira reacão diante disso foi indignacão. Ela é uma simples faxineira aqui em casa e vem me meter nos problemas de família alcoólatra desestruturada dela! Como ela chega entrando assim na minha casa, colocando em risco também a minha seguranca e a dos outros que estavam aqui dentro? Minha vontade era de, assim que passasse o alvoroco, dar uma puta esporro nela e dizer pra ela nunca mais chegar perto de casa.
Foi aí que eu comecei a pensar sobre aquele lance da realidade. Eu olhei as criancas, todas já machucadas, mais por dentro do que por fora, vítimas de uma não-família, de um cotidiano doméstico de xingamentos e agressões, pai e mãe alcoólatras, escola de péssima qualidade, e comecei a me questionar. Como eu posso simplesmente falar pra sumirem de perto, deixá-los à própria mercê, fingir que não existem?
Por outro lado, o que é que eu posso fazer? Como se conserta isso? Como se reestrutura uma família e uma realidade completamente insanas, caóticas e cruéis? Como se curam os traumas e seqüelas que já ficaram nas criancas? O que é que eu posso fazer?!
Será que eu quero descobrir o que fazer?
Se eu descobrir, será que eu tenho coragem?